Sexta-feira, 29 de Fevereiro de 2008

Rua Mato Grosso, o charme de Higienópolis conquista São Paulo


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Se você é do tipo que prefere não passar perto de cemitério, vai ter de se acostumar: daqui a pouco vai ser difícil evitar a Rua Mato Grosso


Juliana Araújo e Thais Caramico


Escondida atrás do muro do Cemitério da Consolação, a Rua Mato Grosso, em Higienópolis, está crescendo. De cinco anos para cá, donos de restaurantes, bistrôs, bares e docerias descobriram a região - e sua semelhança com a Recoleta, bairro de Buenos Aires que também tem um cemitério ao lado de seu centro gastronômico. Por aqui, o que tem atraído


chefs e empresários de vários ramos é a tranqüilidade do trecho que começa na Rua Coronel José Eusébio, passa pela Mato Grosso e termina nas ruas Pará e Itacolomi - e seu potencial para oferecer serviços em pequenos casarões que escaparam de demolições graças à falta de interesse do mercado imobiliário. Até o fim de março, dois novos estabelecimentos serão inaugurados ali. O secretário das subprefeituras, Andrea Matarazzo, já enxerga a vocação da Rua Mato Grosso. “Toda a região de Higienópolis está se desenvolvendo e a Rua Mato Grosso tem um charme especial por sua localização e arborização”, explica. Morador do Morumbi, o secretário “adora” o Ici Bistrô e passa por ali quando pode.


Sócio do futuro Bar Higienópolis, na esquina da Rua Mato Grosso com a Rua Pará, Teodoro Eggers Neto aposta tanto na rua que decidiu adotar, em 2006, a Praça Vitor Del Plaza, que concentra a maior parte do comércio em seu entorno. No fim do ano passado, a Prefeitura adaptou a área para deficientes físicos e Eggers Neto cuidou da limpeza do gramado. No próximo mês, com a inauguração de seu bar, ele pretende montar ali um minicampo de golfe. Além dele, o Restaurante Ipê Amarelo, do jovem chef Leonardo Mesquita, 25 anos, também será aberto. “Foi um ano até a papelada ficar pronta e agora está tudo certo”, diz. Em esquema self-service, o chef - que trabalhou um ano e meio na cozinha do Mestiço - quer oferecer um bom quilo, mais elaborado do que as casas de mesmo estilo. Já pensando em atrair os funcionários e pacientes do Higienópolis Medical Center (centro médico localizado na rua), ele promete mudança semanal no cardápio, além de massas diferentes, como lasanha de carne seca e alguns pratos nordestinos “difíceis de encontrar por ali”. Quem sabe você não vai mais sentir tanta saudade da última vez que foi a Buenos Aires?


O charme dos cemitérios


Duas áreas bem-valorizadas da América do Sul, Recoleta, em Buenos Aires, e Higienópolis, em São Paulo, ficam próximas de cemitérios. O da Recoleta, de 1822, é famoso por ter os restos mortais de Evita Perón, além de estar localizado numa área de parques, bulevares, e ter um centro gastronômico e cultural. Por aqui, atrás do Cemitério da Consolação, de 1858, não há tantas atrações. Será uma questão de tempo?


Em cinco anos, uma rua transformada


O dono da doceria Dulca, Bruno Negrini, foi o primeiro a arriscar um negócio na calçada formada pelas ruas Itacolomi, Pará e Mato Grosso. Morador do bairro, ele decidiu abrir uma filial no número 639 da Itacolomi assim que viu a casa para alugar. “Fomos pioneiros ali”, orgulha-se. Dois anos depois, Renato Ades e o chef Benny Novak, donos do Ici Bistrô, se mudaram para a Rua Pará, a menos de uma quadra da Dulca, e movimentaram ainda mais aquele trecho. Antes, o Ici ficava na Rua Mato Grosso, no 450, em frente ao Cemitério da Consolação, onde hoje está a AK Delicatessen, de cozinha judaica. Mas a mudança só ocorreu por problemas com os proprietários da casa - os sócios gostavam de ter o cemitério na vizinhança. “Sempre achamos ‘cool’ ficar perto de um cemitério”, diz, comparando a região com a Recoleta, em Buenos Aires. Dona do restaurante argentino Martín Fierro, Ana Maria Massochi também percebeu o potencial da região quando escolheu a Rua Coronel Eusébio, travessa da Mato Grosso, para abrir o La Frontera. No meio de casas decadentes, o charmoso sobrado atraiu uma clientela sofisticada. As casas da vila localizada na esquina com a Rua Dona Paula, por exemplo, abrigam hoje escritórios modernos, como o Idéia e Companhia, agência de design de Carol Furlan, que usa materiais como camurça para criar acessórios e desenha bijuterias para grifes como A Mulher do Padre. No fim de 2006, a Dulca ganhou outro vizinho: a Mercearia do Francês, na Rua Itacolomi. Animado com as novas inaugurações, como a da doceria Choco.lab, a uma quadra dali, o maître José Valmir dos Santos diz que já tem “clientela conquistada”.


O que fazer para não destruir a região


Especialista em recuperação urbana - e morador do bairro -, Carlos Leite aponta o que deve (e não deve) ser feito para conservar a região.

O muro do cemitério: um bom projeto paisagístico ou artístico - como um grafite assinado pelos irmãos Osgêmeos - tiraria a impressão de decadência. As calçadas, com bancos de madeira e nova iluminação, seriam alargadas para aumentar o fluxo de pessoas. Como um parque: a rua seria fechada aos fins de semana, funcionando como um boulevard, sem tráfego de carros e ônibus. Isto já manteria a região mais conservada e com menos poluição.


Centro comercial: o mercado imobiliário seria impedido de construir apenas escritórios e consultórios nos próximos anos, o que limitaria o movimento de pessoas somente no horário comercial. Bares e lojas são bem-vindos.


Só mais uma mãozinha


“Não concordo com a mão única da Rua Cel. José Eusébio. Se você está na Mato Grosso e quer entrar na vila ao lado do restaurante La Frontera, tem de dar uma volta enorme.” Tirso Guimarães, que há 12 anos trabalha na vila


Paisagismo em pane


“Em oito anos que estou aqui, a rua melhorou muito, mas a falta de cuidado com as árvores dos cemitérios que desabam sobre os fios elétricos são um problema.” Rai Carvalho, dona da loja de aluguel de fantasias Starlight


Passarela para o hospital infantil


Atrás do Higienópolis Medical Center está o futuro Hospital Sabará, na Avenida Angélica. “Sabemos que o Sabará será ali o maior hospital infantil do País e que já cogitaram a hipótese de um dia os prédios serem interligados (com uma passarela). Mas, por enquanto, não há nada certo”, diz Newton Quadros, diretor do Fleury Hospital Dia.


Dora Campos, a síndica


Há 50 anos, quando Dora Mesquita Campos nasceu, a Rua Mato Grosso era feita de casinhas térreas e alguns comércios, como a floricultura de sua mãe, Lidia, que até hoje ocupa o mesmo número da rua, o 306.

“Cresci ali e ajudava minha mãe fazendo muitos maços de flores para as pessoas que iam ao cemitério (da Consolação). O movimento da rua vinha de quem queria visitar o túmulo de pessoas tradicionais da sociedade, como Washington Luís, Monteiro Lobato, Tarsila do Amaral e Oswald de Andrade”, recorda com nostalgia. E seus olhos brilham enquanto continua falando do lugar. Dora jura que, se pudesse, faria do local um museu histórico - já mobilizou a vizinhança e conseguiu a contratação de um guarda para ficar na porta do cemitério e até entregou para a Prefeitura um projeto de paisagismo para o muro, que não obteve resposta. Além de conhecer todo mundo na região, só no entorno, ela cuida do paisagismo de alguns consultórios do prédio vizinho e do Ici Bistrô e La Frontera. “Tudo o que as pessoas precisam saber elas perguntam para mim. Não tem um prédio que eu não tenha entrado para fazer entregas.” Ela só não é a síndica da rua porque o cargo (ainda) não existe. É só criar, Dora, que nós apoiamos.